quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Maria

Santa Maria é onde eu cresci. Em seu asfalto cresceu meu caráter, em suas paredes mal pintadas nasceram meus sonhos, em suas casas velhas meu amor. Os olhos perscrutam o nada além do conviver, as vidas anseiam apenas suas próprias criações. Não há tamanha ambição, não há ódio suficiente; só há Santa Maria. Em algum banco de concreto, encostado na parede, as mães ensinam aos filhos o que verão ao sair de casa; os pais trazem com alegria qualquer brinquedo, pensam na satisfação dos seus, no singelo sorriso que os recompensa. Ali é aonde criam-se as vidas. Nascem já sobrevivendo, lutam como já não houvesse ontem.

Um bêbado que bate de porta em porta, pedindo algum trocado. Algum chefe de família que me conta de seus cinco filhos, morando em algum lugar longínquo, pedindo, por-amor-de-Deus, que o ajude. É bem-vindo, sempre. Domingo o vizinho chama a família, comemora sem-razão, comemora apenas. Os meninos andam de bicicleta, montam traves de madeira, servindo de gol. Começam a jogar e já são grandes amigos. Rivalizam pequenas causas; brincam de pequeno mundo.

As ruas de terra já deixaram de ser, deram lugar ao concreto e ao asfalto. Não reconheço a paisagem, mas é decerto parte de mim. Ali repousa o mesmo cheiro, o mesmo calar da tarde diante do barulho da estrada que espreita. Ali repousa os primeiros pingos de chuva, meus óculos embaçados pelas gotas, a corrida de volta para casa. Também estão os meninos que deixaram de ser; nunca o foram, na verdade. Vagaram de chão em chão. Juntaram-se a ele, ao final. São partes da sobrevida. “Aonde estão seus pais, aonde eles moram?”, perguntava-me. Não moravam, eles nunca existiram. Pedaço que jamais se encaixa.

Final de semana iria ao clube, conhecia outros tantos que não havia visto. Agora os tinha, sabia de suas vidas. Cresciam ao meu lado, eram parte do meu castelo de sonhos, todo feito de gente; vivia os que ao meu lado estavam, mesmo que não soubessem: eles nunca foram em vão. Os via em cada casa que não conhecia, acenava para eles nas janelas que estavam vazias. Percorria as ruas e podia vê-los correr ao meu lado... Ainda posso.

As negras, pequenas pedras na rua doeram meus pés. Fizeram calos e já os vejo quando acordo. Cada esquina tem meu nome, e são minhas, todas. Falam melhor que quaisquer palavras. São testemunhas, são parte de mim. Foi ali que nasci, e é pra lá que volto, todos os dias.


01/10

Um comentário:

Gilberto disse...

Gostei demais Gabriel. Me lembrou muito da minha pequena Cambuci, no estado do Rio (mas não penso voçtar pra lá não).
Mas estou sendo muito repetitivo quando se trata de você.
Parabéns...
Acho você incrível!